Igreja do Rosário dos Pretos em Natal: fé, escravidão e o resgate da tradição. Uma história de fé e resistência
A Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, localizada no centro histórico de Natal (RN), é um dos símbolos mais marcantes da relação entre religião, escravidão e identidade cultural no estado. Construída por mãos negras e para a comunidade negra, ela representa um espaço onde fé e história se entrelaçam de forma singular.
No episódio 045 do podcast Cristianismo Inteligente, o professor Cláudio Ananias conversou com o historiador e pastor Davi Alves sobre as origens dessa igreja, a presença da escravidão no Rio Grande do Norte e a importância do rito tridentino — uma forma tradicional da missa católica que ainda é celebrada ali.
A escravidão no Rio Grande do Norte: entre o silêncio e a história
Um dos pontos discutidos foi o equívoco de pensar que o Rio Grande do Norte não teve escravidão. Conforme explicou Davi Alves, embora o número de escravos tenha sido menor em comparação com estados como Bahia e Pernambuco, o sistema escravocrata também fez parte da realidade potiguar.
Com base nos registros de Câmara Cascudo, o estado possuía poucos engenhos de açúcar — como o Solar Ferreiro Torto (em Macaíba) e o Engenho Cunhaú (em Canguaretama). Ainda assim, o trabalho escravo estava presente, especialmente nas atividades domésticas e agrícolas.
O Rio Grande do Norte foi o segundo estado brasileiro a abolir a escravidão, logo após o Ceará, com destaque para o protagonismo da cidade de Mossoró nesse processo.
Fé e controle: o surgimento das irmandades negras
Durante o período colonial, a Igreja Católica passou a lidar com a presença crescente de africanos escravizados nas missas e nas cidades. A partir daí surgiram as irmandades negras, grupos religiosos formados por escravizados e libertos sob a supervisão do clero.
Essas irmandades buscavam reunir os negros em torno da fé, mas também funcionavam como uma forma de controle social, já que a Igreja temia rebeliões e fugas. No caso de Natal, foi assim que nasceu a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída pelos escravos e para os escravos — um espaço próprio de culto e convivência.
A separação entre brancos e negros nas igrejas
Enquanto os fiéis brancos frequentavam a antiga Igreja Nossa Senhora da Apresentação, os negros eram direcionados à recém-criada Igreja do Rosário dos Pretos. A própria arquitetura das igrejas expressava essa divisão: a Igreja do Rosário foi construída de costas para a Igreja da Apresentação, simbolizando a segregação racial e social da época.
Além de seu papel religioso, a Igreja do Rosário também serviu como ponto de observação militar, de onde era possível vigiar a entrada de embarcações no Rio Potengi — uma estratégia descrita por historiadores locais.
A Igreja Nossa Senhora da Apresentação, a antiga catedral era a igreja dos brancos, construída em 1599. Em 1714 foi construída a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos para os para os pretos e os pobres. E em 176 foi construída a igreja dos militares, a igreja de Santo Antônio, famosa igreja do Galo, uma igreja para os militares. São as três primeiras igrejas do Rio Grande do Norte que definiam as nossas classes sociais à época.
Tradição viva: a Missa Tridentina
Um dos aspectos mais fascinantes da Igreja do Rosário dos Pretos hoje é a celebração da Missa Tridentina, rito católico tradicional em latim, restaurado em 2007 com autorização papal.
Nessa liturgia, o padre celebra voltado para o altar, as mulheres usam véu e o silêncio e a reverência marcam toda a cerimônia. Como relatou Davi Alves, que pesquisou o tema em sua dissertação de mestrado, “o silêncio fala” — cada gesto convida à contemplação e à experiência do sagrado.
A Missa Tridentina representa um resgate da tradição católica em meio à modernidade. Embora a Igreja tenha sido construída pelos negros, atualmente a maioria dos frequentadores é branca e vem de outras regiões da cidade, o que revela um paradoxo histórico: o templo criado para os escravizados agora é espaço de um rito preservado por fiéis de fora do bairro.
Tradição e modernidade: um diálogo necessário
Na parte final da conversa, os apresentadores refletiram sobre a tensão entre tradição e modernidade, tanto no catolicismo quanto nas igrejas evangélicas.
O professor Davi destacou que a busca pelo retorno ao antigo rito revela a insatisfação com a modernidade, que prometeu progresso, mas trouxe guerras, desigualdade e vazio espiritual.
Para ele, o equilíbrio é o caminho:
“Podemos resgatar a tradição sem perder a modernidade. O
problema não está na mudança, mas no radicalismo.”
Na conversa foi acrescentado que o mesmo fenômeno ocorre nas igrejas evangélicas, que muitas vezes substituem a beleza e profundidade dos hinos e da arquitetura tradicional por práticas simplificadas e estéticas minimalistas. Essa mudança, segundo eles, pode refletir uma pobreza espiritual e simbólica.
Conclusão: o retorno ao essencial
O episódio termina com uma reflexão que ecoa tanto na história quanto na fé: não condiz seguir adiante cegamente, a fé não é um salto no escuro. Faz-se necessário refletir, avaliar racionalmente e, em algumas situações, a reflexão mostrará a necessidade de voltar às raízes, recuperar o que é essencial e relembrar o que foi esquecido.
Se você deseja fortalecer sua fé e ouvir conversas edificantes sobre Teologia, Filosofia e Defesa da fé Cristã, acompanhe os episódios do Podcast Cristianismo Inteligente, toda sexta um novo episódio no ar.
Clique aqui e confira o episódio na íntegra:
Ep 045 - Igreja do Rosário dos Pretos em Natal: Missa Tridentina, Escravidão R…
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Que Deus abençoe a todos.
Autor: Dr. Cláudio Ananias / Convidado: Pr. Davi Alves
Publicação original em: 29 de agosto de 2025
Categoria: PODCAST
Foto de capa: Marcos Elias de Oliveira Júnior em WikiCommons.